Nós já tínhamos desistido de ir ao show de Milton Nascimento e Lô Borges no Coquetel Molotov. Na nossa condição momentânea de lisos, e minha namorada sem carteira de estudante, o preço do ingresso nos proibia a diversão com os mineiros. Estávamos sem saber o que fazer com nosso belo sábado, quando, de repente, a porta se abre e Joãozinha nos invade a sala, com uma proposta altamente maloqueira: ir ao show de graça, através de um caminho secreto nos subterrâneos do Centro de Convenções.
Maria João, ou Joãozinha, é uma portuguesa que está no Brasil há cerca de um ano, trocando o "ora pois" por "podes crer", toda "ligada nas paradas". Seus amigos de Maceió a informaram desse estrategema pouco europeu, pelo qual já tinham visto Chico Buarque e Caetano Veloso sem levar a mão ao bolso. Eu já tinha ouvido falar da malandragem, mas achava que pertencia às "lendas urbanas" de nossa querida cidade. Joãozinha, contudo, estava super empolgada:
- Vamos nessa, pô! Vai ser massa, e o máximo que pode acontecer é a gente não conseguir entrar.
- Mas se pegarem a gente, eu vou morrer de vergonha! - replicou minha namorada Lili, que carece de experiência na área da maloqueiragem.
- Que nada, pô! É só a gente dar meia volta... mas vai rolar, tu vais ver!
Contagiados pelo entusiasmo de Joãozinha, fomos ver o que acontecia no Centro de Convenções. O tal caminho começava por uma descida de escada, de onde um guarda não saia do lado. Bebemos, comemos, conversamos, e a marcação do guarda continuava implacável. O show de Milton e Lô Borges já ia começar, nós já tínhamos desistido da maloqueiragem, quando resolvemos dar uma última passada pelo tal caminho, só por desencargo de consciência. Olhamos para um lado, para o outro, e... plim! A rota estava livre, pedindo para ser desbravada por jovens audazes como nós.
- Vamo nessa galera, rápido, rápido!
Descemos as escadas naquela empolgação de pirralho fazendo traquinagem, levando conosco amigos que já tinham comprado o ingresso, mas nos acompanharam por conta do espírito aventureiro. Lá embaixo, vários caminhos, várias portas, algumas delas com seguranças dormindo do outro lado, outras com bloqueios... não encontrávamos o caminho correto, quando ouvímos passos... corremos para nos esconder, até percebermos que eram outras pessoas fazendo o mesmo que nós. Acompanhamos uns barbudos com mais know-how na função, e... bingo! Achamos a porta prometida, caímos no meio da platéia, instantes antes de começar o show.
Sentamos nas cadeiras com um sorriso de orelha à orelha, só essa aventura da entrada já tinha valido a saída. Começa o show, e o repertório mais recente de Lô Borges me soou altamente xaroposo. Mas certamente soava muito mais xarope para um pirralho de uns 15 anos na minha frente: ele "pescava" de três em três segundos, tombando a cabeça para trás, acertando o copo de Lili por duas vezes, quase parecendo ter um ataque de epilepsia: "pescadores" normais conseguem passar no mínimo uns 15 ou 20 segundos acordados antes do próximo mergulho de cabeça. Esse cidadão em construção não passava mais de cinco segundos, na real, sem figura de linguagem. Atribuir esse sono todo ao xarope sonoro é exagerar as propriedades soníferas do nosso Lô Borges. Certamente o pirraia deve ter trelado com outros tipos de xarope...
Milton demorou um pouco a entrar no palco, afinal ele era um convidado de Lô Borges, embora a maioria do público estivesse ali por conta do negão, como um cara atrás de mim não parava de chamá-lo. Ele enfim entrou, tocando uma música sozinho no piano... bastou ele abrir a boca para a mágica acontecer. Quando cantava junto com Lô Borges, ficava nítida a diferença entre os dois intérpretes. Lô Borges pode ser um ótimo compositor, mas como cantor e performer não empolga... No bis, Milton cantando sozinho no violão matou um tanto da sede da platéia, e no final o saldo foi bom, ainda mais com um custo desses...